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A Nossa Missão
A SPEA é uma ONG de ambiente sem fins lucrativos, que tem por missão trabalhar para o estudo e a conservação das aves e seus habitats, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações futuras.
Notícias


A grande evasão


Para quem se aproxima do Raso, de barco, pode parecer que está a chegar a uma prisão: uma parede de rocha vulcânica avermelhada de 10 metros de altura, aparentemente impenetrável, que ascende de um “fosso” de águas turbulentas, patrulhadas por tubarões, no Atlântico. Mas, em vez de torres altas e muralhas defensivas, a única infraestrutura humana nessa pequena ilha praticamente plana é uma antiga tenda militar e, em vez de guardas armados, é possível observar, através dos rasgões abertos pelo vento na lona da barraca, biólogos conservacionistas a programar transmissores de rádio. Quem são, então, os "prisioneiros"? Calhandras-do-raso Alauda razae (Criticamente Ameaçada), uma das aves mais raras do mundo. Durante muitas décadas, esta pequena ave de crista castanha esteve confinada ao Ilhéu Raso (Raso), apenas sete quilómetros quadrados de rocha estéril em Cabo Verde, ao largo da costa ocidental de África. O crime? É um caso complicado de injustiça: a Calhandra-do-Raso é uma vítima inocente da introdução humana de predadores invasivos.
Mas agora, depois de anos a fazer planos em tendas à luz da lanterna, com um projeto recente de restauração da ilha e apoio financeiro internacional, reuniram-se finalmente as condições certas para procurar a libertação desta ave. Uma equipa de biólogos da Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (BirdLife Portugal), da Biosfera (ONG cabo-verdiana), da BirdLife International, do governo cabo-verdiano (DNA – Direção Nacional do Ambiente) e da Universidade de Cambridge capturaram recentemente cerca de 30 calhandras-do-raso, alimentaram-nas durante a noite, transportaram-nas de barco em sacos de pano tranquilizantes, e libertaram-nas em Santa Luzia (uma ilha próxima, com mais de cinco vezes o tamanho do Raso). “Era uma carga frágil a que carregámos naquela manhã”, diz Paul Donald, Coordenador Científico da BirdLife. “Estávamos todos ansiosos pelo sucesso. Observar os pássaros a voar livremente na sua nova casa em Santa Luzia foi um marco para a conservação das aves.”

Mas não é apenas uma translocação da espécie; é uma "reintrodução". Depósitos ósseos sub-fósseis mostram que a calhandra-do-raso habitou Santa Luzia e outras ilhas cabo-verdianas antes da colonização humana no século XV, depois da qual desapareceu muito rapidamente. Desde então, a espécie está confinada à pequena ilhota que lhe deu o nome, e não é por acaso: esta é a maior ilha de Cabo Verde que nunca teve uma população humana permanente.


A equipa da Biosfera liberta calhandras-do-raso em Santa Luzia © Paul Donald / BirdLife


Calhandra-do-raso (Alauda razae) com anilhas de identificação, no Ilhéu Raso. © Awatef Abiadh





A calhandra-do-raso também é vulnerável aos efeitos das mudanças climáticas, diz Pedro Geraldes, da SPEA: “Depende dos anos chuvosos para conseguir comida suficiente para se reproduzir. Em 2004, após vários anos consecutivos de seca, a calhandra-do-raso esteve perto da extinção, com uma população de apenas 60 aves.” Depois de o furacão Fred ter atingido Cabo Verde em 2015, Tommy Melo, Presidente da Biosfera, declarou com um enorme sentimento de urgência: “Todos os anos temos tempestades mais e mais fortes. Com números tão baixos, um furacão ou seca poderia destruir toda a espécie. Criar uma segunda população em uma nova ilha dar-lhes-á uma chance muito maior de sobrevivência.”

Tal como em algumas prisões, ratos e gatos são um problema, e essas espécies invasoras são uma grande ameaça para os pássaros que nidificam no solo, como a calhandra-do-raso. E como pequenos barcos de pesca visitam regularmente o Raso, seria apenas uma questão de tempo até que estes predadores chegassem, por isso o trabalho começou em 2013 para preparar Santa Luzia para a reintrodução da calhandra. Abandonada por humanos na década de 1970 (com exceção de alguns abrigos temporários usados pelos pescadores que passavam) e com vegetação semelhante ao Raso, Santa Luzia foi uma escolha clara para uma futura fortaleza da espécie, após a remoção das espécies invasoras. Depois de alguns anos de chuvas que permitiram que a população de calhandra no Raso recuperasse para um nível recorde de mais de 1.000 aves desde 2004, chegou a hora da "grande evasão" em abril deste ano.

Para Tommy Melo, escapar por pouco em nome da conservação da natureza não é novidade: uma vez acampou no vizinho ilhéu Branco para proteger as tartarugas marinhas de caçadores e, quando a comida acabou, mergulhou à procura de peixe, arriscando-se a ser mordido por um tubarão. “Agora realizamos um sonho”, diz Melo. “Esperamos que estas calhandras-do-raso estabeleçam uma população totalmente nova que um dia possa ultrapassar a população do Raso.” Este projeto também faz parte de um grande sonho da Biosfera, que trabalha para ver as ilhas Desertas do Raso, Branco e Santa Luzia geridas como uma área marinha protegida, que conserve toda a vida selvagem lá existente, incluindo as tartarugas em extinção, aves marinhas e lagartos endémicos.

Em Santa Luzia, no entanto, as aves não são completamente livres: como alguns prisioneiros libertados, os “fugitivos” exibem anilhas de identificação, e alguns estão equipados com transmissores de rádio para permitir acompanhar seus movimentos, e entender as suas interações sociais e preferências de habitat, para ajudar a informar futuras ações de conservação.
"O verdadeiro teste virá em outubro e novembro deste ano - a época de acasalamento habitual", diz Michael Brooke, da Universidade de Cambridge, que acompanha o destino da calhandra-do-raso desde 2002. "Se tudo correr bem e as chuvas vierem a tempo, o canto da calhandra-do-raso voltará a soar em Santa Luzia, e a primeira nova geração de calhandras-do-raso cujo lar é Santa Luzia deixará o seus ninhos em segurança”.



Calhandras-do-raso partindo à descoberta do seu novo lar. Foto: SPEA




Do mar, o Ilhéu Raso pode parecer uma prisão, mas conhecendo a situação da sua calhandra especial, vê-se o Raso com novos olhos. Enquanto o sol se põe e as cagarras e paínhos/pedreirinho da ilha se ouvem a voar para alimentar filhotes, fica claro que o Ilhéu Raso é, de fato, uma linda fortaleza natural: em vez de confinar pássaros raros, a ilha protegeu-os da extinção até chegar a hora de lhes dar uma chance de prosperarem novamente.



DEDICAÇÃO ÀS ILHAS DESERTAS

Apoios que contribuíram para salvar a Calhandra do Raso

O projeto Desertas - Gestão Sustentável da Reserva Marinha de Santa Luzia foi iniciado em 2017, com apoio da MAVA Foundation à SPEA, à Biosfera e à DNA, e visando a recuperação total e proteção dos habitats e da biodiversidade ameaçada das Áreas Marinhas Protegidas do Ilhéu Raso, Branco e Santa Luzia, um importante ponto de acesso de biodiversidade no Atlântico Norte. Agradece-se ao Fundo de Parceria para Ecossistemas Críticos (CEPF), que entre 2013 e 2015 apoiou a Biosfera e a SPEA na implementação de um projeto para avaliar a viabilidade desta re-introdução pioneira.
Obrigado também à Sea Shepherd pelo apoio logístico.


Este artigo foi inicialmente publicado em inglês pela BirdLife

Imagem de abertura: Depois de uma viagem curta mas árdua, as calhandras-do-raso chegaram a Santa Luzia sãs e salvas, numa caixa à prova de água © Paul Donald / BirdLife

13 de julho de 2018







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