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A Nossa Missão
A SPEA é uma ONG de ambiente sem fins lucrativos, que tem por missão trabalhar para o estudo e a conservação das aves e seus habitats, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações futuras.
Notícias


Sobre abutres e diclofenac


Helder Costa reflete sobre a possibilidade de vermos repetir-se na Europa a triste história dos abutres da Índia.

Se em 1994, quando visitei a Índia, alguém me tivesse dito que os abutres estavam prestes a desaparecer desse país decerto teria pensado que era uma brincadeira, tal a sua abundância mesmo no interior de grandes cidades.

No entanto, por muito incrível que isso me pudesse então parecer, foi precisamente o que sucedeu. Aliás, vendo bem agora, é possível que na altura o processo já se tivesse iniciado mas fosse ainda pouco perceptível. Com efeito, mais ou menos a partir de meados da década de 1990 o número de abutres começou a baixar de forma substancial e, em poucos anos, estas aves quase desapareceram da Índia e doutros países da região. O decréscimo populacional ultrapassou nalguns casos os 90%.

Um medicamento que pode matar
As causas dessa quebra brutal das populações de abutres permaneceram um mistério até 2003 quando diversos estudos efectuados demonstraram que a causa do desaparecimento destas aves estava relacionada com a utilização generalizada de um medicamento barato para o gado que continha diclofenac. Este fármaco é um anti-inflamatório com um vasto espectro de utilização tanto em humanos como em animais. Em termos veterinários, é usado sobretudo para tratar o gado bovino. O problema é que permanece activo durante algum tempo no organismo dos animais tratados que eventualmente morram provocando depois falhas renais graves nas aves necrófagas que os consumam (fatais ao fim de dois dias). A descoberta levou a que o uso do diclofenac para tratamentos veterinários começasse a ser banido na Ásia a partir de 2006.

O ocaso das populações de abutres no subcontinente indiano, e não só, constitui um bom exemplo de como a acção humana pode conduzir espécies à beira da extinção num curto espaço de tempo gerando com isso uma série de problemas em cadeia de difícil resolução. Convém recordar que estas aves desempenham um papel central nalguns usos e costumes dos povos da região e, para além disso, assumem grande relevância em termos higiénicos e sanitários uma vez que «limpam» os restos de animais mortos podendo a sua ausência contribuir para a contaminação da água potável e a disseminação de doenças.

Repetição de um erro?
Apesar de haver alternativas, o uso veterinário do diclofenac está autorizado na Europa desde 1993. Tendo em conta o que sucedeu e o que actualmente se sabe, seria expectável e razoável que tivessem sido tomadas medidas para impedir uma repetição da catástrofe asiática. Infelizmente, não foi isso que aconteceu. Em 2014 a Agência Europeia do Medicamento (EMA) reconheceu que a utilização do diclofenac podia colocar em risco as populações europeias de abutres e doutras aves necrófagas, mas não baniu o fármaco. Em 2015 a União Europeia decidiu seguir as recomendações da EMA e deixar à responsabilidade dos estados membros que utilizarem diclofenac evitar que os despojos de animais mortos tratados com o fármaco entrem na cadeia alimentar. 

Em Portugal está a ser avaliada na Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) uma solicitação de autorização de introdução no mercado de um medicamento veterinário contendo a substância activa diclofenac. Esta é uma hipótese preocupante. Convém não esquecer que Portugal tem populações importantes de abutres e doutras aves necrófagas no contexto europeu e responsabilidades internacionais pela sua conservação.

Apesar de tudo, há alguma esperança. A SPEA e outras organizações de conservação da natureza nacionais e internacionais têm vindo a acompanhar este processo e a manifestar a sua oposição. Fruto da discussão que se gerou, em meados de Abril deste ano a Assembleia da República aprovou o Projeto de Resolução 1433/XIII/3ª (PAN) que recomenda ao governo português que não autorize a comercialização de medicamentos veterinários com diclofenac. Resta esperar que o volume de informação disponível seja suficiente para que a decisão final seja ponderada e tenha em conta o princípio da precaução como salvaguarda da biodiversidade.


Mais informação:
O CASO DE ESPANHA
Em Espanha, que tem as maiores populações de abutres da Europa e onde o diclofenac é utilizado desde 2013, as autoridades estatais apontaram para uma estimativa de mortalidade entre 15 a 39 abutres por ano devido ao seu uso. A estes dados conservadores contrapuseram-se outros obtidos por investigadores independentes que, através de modelação, estimaram uma mortalidade potencial que poderá rondar entre 715 a 6389 aves por ano, números bem mais significativos e que, a verificarem-se, poderão causar sério impacto nas populações nidificantes destas aves.


Green, R.E. et al.  (2004). Diclofenac poisoning as a cause of vulture population declines across the Indian subcontinent. Journal of Applied Ecology 41 (5): 793–800.

Green, R.E. et al. (2016). Potential threat to Eurasian Griffon vultures in Spain from veterinary use of the drug diclofenac. Journal of Applied Ecology 53 (4): 993-1003.

Markandya, A. et al.  (2008). Counting the cost of vulture decline—An appraisal of the human health and other benefits of vultures in India. Ecological Economics 67 (2): 194–204. doi 10.1016/j.ecolecon.2008.04.020.

Prakash, V., Pain, D.J., Cunningham, A.A., Donald, P.F., Prakash, N., Verma, A., Gargi, R., Sivakumar, S., & Rahmani, A.R. (2003). Catastrophic collapse of Indian whitebacked Gyps bengalensis and Longbilled Gyps indicus vulture populations. Biological Conservation 109: 381-390. doi: 10.1016/S0006-3207(02)00164-7.



28 de novembro de 2018




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