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A Nossa Missão
A SPEA é uma ONG de ambiente sem fins lucrativos, que tem por missão trabalhar para o estudo e a conservação das aves e seus habitats, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações futuras.
Notícias


Marcar presença(s) pela natureza


À primeira vista, dar um passeio de bicicleta parece não ter nada que ver com calcular o tamanho da população das espécies de aves que nidificam em Portugal. Mas a verdade é que um simples passeio pode ter resultados preciosos. Apontar as espécies que avista num passeio ou num dia no campo pode ser uma forma de ajudar a natureza.

Os seus registos de observação – mesmo de espécies comuns e fáceis de observar – ao juntarem-se aos de milhares de pessoas por todo o mundo, em plataformas digitais globais, formam uma base sólida para decisões relativas à conservação da natureza, e podem até levar a novas descobertas científicas.

Para percebermos as tendências das espécies, e avaliarmos ameaças e soluções de conservação ao nível nacional e internacional, são precisos números concretos. Assim, fazer contagens sistemáticas de espécies de aves que ocorrem em Portugal é essencial e é por isso que a SPEA coordena e/ou participa numa série de censos e outras ações de monitorização. Nestes censos, a tarefa hercúlea de contar aves por todo o território nacional, ao longo de meses ou anos, é transformada num trabalho de equipa: dezenas de voluntários enviam os seus registos através da plataforma PortugalAves/eBird, alimentando uma base de dados em que o todo é maior do que a soma das partes.

O seu contributo faz a diferença
“Graças a estes contributos, podemos acompanhar o estado das populações, e tirar ilações a longo-prazo,” diz Rui Machado, que coordena alguns dos censos da SPEA. A título de exemplo: se tiverem uma estimativa de quantas aves de determinada espécie havia em cada um dos últimos 10 anos, podemos avaliar se um aumento no número de observações num determinado ano faz parte de uma tendência mais alargada, ou se se enquadra num ciclo natural da espécie. “Há espécies que estão com uma tendência claramente negativa, como é o caso do picanço-barreteiro [Lanius senator]. E tem havido espécies que têm crescido: não só a sua população tem aumentado, mas também a sua área de distribuição tem alargado. É o caso da cegonha-branca [Ciconia ciconia], por exemplo,” diz Rui Machado. Cruzando estes dados com indicadores climáticos ou outro tipo de informação, pode-se tentar perceber as causas dessas flutuações.

Alguns destes censos permitem ainda detetar padrões mais complexos, que vão além de espécies individuais. “Podemos ver que as espécies associadas a habitats agrícolas como as planícies alentejanas têm diminuído como um todo, provavelmente devido à alteração das práticas agrícolas: a transformação de sequeiros em regadios e a intensificação da agricultura,” explica Rui Machado.

Contribuir para decisões importantes
Os dados obtidos nestes censos ficam disponíveis a cientistas do mundo inteiro, podendo continuar a contribuir para estudos futuros. Alguns dos resultados são ainda importantes pois a SPEA tem fornecido informação para os relatórios que o Estado Português tem que apresentar à Comissão Europeia, no âmbito da Diretiva Aves, pelo que as observações dos voluntários que contribuem para estes censos podem influenciar as decisões políticas relacionadas com a conservação da natureza a nível europeu. Para além de ajudar à tomada de decisões fundamentadas e sustentáveis, o envolvimento de grandes números de voluntários demonstra aos poderes políticos que as pessoas se preocupam e mobilizam em prol da natureza, e que as preocupações ambientais devem estar no topo da agenda política.

Voluntariado em prol da natureza
Apesar de todas as ações de monitorização da SPEA se regerem pelos mesmos princípios, há diferentes censos que permitem estudar diversas espécies e situações. Esta variedade significa também que, em termos de requisitos para os voluntários, há censos para todos os níveis de conhecimento e de disponibilidade. “O Censo de Aves do Natal e Ano Novo, que está prestes a começar, é muito simples de fazer. Pode ser feito de bicicleta ou de carro: percorre-se um percurso e aponta-se o número de espécies que se vê, de uma lista pré-definida,” diz Rui Machado. “Já o Atlas das Aves Nidificantes é um projeto mais restrito em termos de tipo de observador: é preciso saber identificar visualmente e auditivamente espécies menos conspícuas, ou com distribuição mais localizada.” Este projeto, que pretende estimar a abundância e distribuição de todas as aves que nidificam em Portugal, pode ser um bom desafio para grupos de observadores de aves que já se juntam com regularidade para irem para o campo, sugere Rui Machado. Para produzir este Atlas, pede-se aos voluntários que procurem aves fazendo percursos de meia hora em quadrículas definidas no mapa, durante a primavera. Em vez de uma pessoa passar horas a fazer todos os percursos necessários para completar a amostragem de uma quadrícula, um grupo pode usar a sua saída habitual, dividir-se e fazê-los em menos tempo. Mas até quem não tem disponibilidade para fazer estes registos exaustivos pode contribuir: basta registar as suas listas com códigos de nidificação no PortugalAves/eBird.

Na maioria dos censos, o principal requisito para participar é um atributo que todos os observadores de aves têm de ter: paciência. “Pode acontecer como me aconteceu a mim este ano: fui fazer uma contagem de milhafres num dormitório e fiquei lá 4 horas no mesmo sítio, e as aves passaram por cima de mim mas foram todas para um dormitório novo que eu não conseguia contar do local onde estava…”. Apesar do abanar de cabeça, no semblante de Rui Machado transparece mais fascínio do que frustração.

O desinvestimento no ambiente
A frustração surge, sim, quando se fala de fundos: embora sejam fontes fulcrais de conhecimento, estes projetos de monitorização de aves não recebem qualquer tipo de financiamento do Estado nem da União Europeia já há vários anos, pelo que estão dependentes da boa vontade e dedicação dos intervenientes – tanto pessoas como instituições. “Por vezes há projetos tão importantes que não podemos deixar de os fazer, mesmo sem recursos, e mesmo sabendo que vai levar mais tempo” diz Domingos Leitão, Diretor Executivo da SPEA.

Rui Machado remata: “Num país em que o investimento no ambiente e na conservação da natureza é cada vez menor, termos um grupo de pessoas que nos ajude a obter um panorama geral do estado das aves em Portugal ajuda-nos a contrabalançar esse desinvestimento.” Da próxima vez que pegar nos binóculos ou partir para um passeio, porque não contribuir também?




17 de dezembro de 2018
Este artigo foi publicado na revista Pardela nº 57 (Nov 2018)




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