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A Nossa Missão
A SPEA é uma ONG de ambiente sem fins lucrativos, que tem por missão trabalhar para o estudo e a conservação das aves e seus habitats, promovendo um desenvolvimento que garanta a viabilidade do património natural para usufruto das gerações futuras.
Notícias


Quem corre por gosto


“Quando me foram buscar ao aeroporto, ainda me perguntaram se queria ir descansar porque tinha apanhado o voo às 5 da manhã, mas acabei por ir logo para o campo e estivemos no campo até às oito ou nove da noite.” Desde essa chegada ao Corvo em 2011, Tânia Pipa nunca mais abrandou.

Como técnica da SPEA no Corvo, Tânia Pipa acompanha as aves marinhas na ilha e em ilhéus remotos por todo o arquipélago dos Açores. Para chegar aos ilhéus mais inacessíveis, sobretudo no inverno, chega a ter de saltar do barco ainda ao largo, e enfrentar a nado as vagas. “E o pior é depois perceberes que ainda tens de escalar até lá acima para recuperar os dados do gravador”, diz. O dito gravador regista as vocalizações das aves marinhas, que Tânia Pipa e os colegas depois usam para fazer estimativas de quantos painhos-de-monteiro Oceanodroma monteiroi fazem ninho no ilhéu. Felizmente, nalguns ilhéus é possível chegar mais facilmente às aves. Mas nem por isso a visita de Tânia é menos intensa. “Chegas, passas metade do dia a transportar 30 a 40 kg de material pelo calhau adentro até ao sítio onde montas a tenda. Fazes monitorização de ninhos, depois montas redes para a anilhagem.” Depois de uma noite passada a anilhar, “dormes duas ou três horas, porque depois o sol já não deixa, não há sombra nenhuma. Durante o dia, normalmente estou sempre a explorar. Tens sempre alguma coisa para encontrar, ou estás a recolher informação para outros investigadores que te pediram... nunca estamos parados. Tens que aproveitar ao máximo o tempo que estás nos ilhéus; são três ou quatro noites muito intensivas. E quando chego ao Corvo, quer queira quer não, não paro.”

De volta a casa, além de acompanhar as aves marinhas e analisar os dados recolhidos, Tânia Pipa junta-se à colega na ilha para cuidar do estufim de plantas nativas, arranjar a vedação anti-predadores, que entretanto foi danificada por algum vento forte, fazer atividades com as escolas... Mas se o telefone toca, tudo para. “Se alguém te chama para ires buscar um bicho, tu largas tudo e vais.”

Durante os meses de agosto, outubro e novembro, há ação todas as noites. São as campanhas SOS Estapagado e SOS Cagarro. Todas as noites, nas horas em que mais juvenis saem dos ninhos, Tânia Pipa percorre a vila em busca de aves que tenham ficado encadeadas pelas luzes. E muitas vezes, o trabalho volta a chamá-la a meio da noite. “Na campanha SOS Cagarro, já tive pessoas a chamarem-me às duas, três da manhã, e eu estou sempre disponível. Já cheguei a ir de pijama salvar bichos! É um bocado intenso, mas acaba sempre por valer a pena. Se eu deixo de fazer isso, então não ando aqui a fazer nada.”

Tânia Pipa sabe que esta dedicação às aves é apenas uma parte do seu trabalho: “Este acaba por ser um projeto muito humano, porque tu trabalhas diariamente com as pessoas, fazes parte integrante da comunidade.” A participação da SPEA no desfile de Carnaval, ao lado das crianças do jardim de infância, é já tradição. E este verão, o Festival do Estapagado, que marcou os 10 anos da SPEA no Corvo, teve tanta afluência como a tradicional Festa da Ilha. Essa ligação à comunidade é uma constante para Tânia Pipa, tanto a nível profissional como pessoal. Pelo meio dos horários ditados pelas aves, ainda conseguiu arranjar tempo para ser presidente do Clube Desportivo Escolar do Corvo, batendo-se para que os jovens corvinos pudessem participar em competições regionais, ganhar experiências e alargar horizontes.

Com o ritmo a que vive, talvez não seja surpreendente que Tânia Pipa sinta alguma frustração quando as mudanças tardam em acontecer. “Às vezes sentes que as coisas podiam mudar mais rápido. Por exemplo, em relação às luzes: desligar as luzes durante a última semana de outubro, entre as nove da noite e a meia-noite, que é quando há um pico de saídas [de cagarros dos ninhos], teria um impacto brutal. Pedir às pessoas para fazerem durante uma semana esse pequeno esforço, e algumas pessoas não estarem disponíveis para o fazer... isso para mim é super-frustrante.” Ainda assim, Tânia Pipa já nota diferenças desde que chegou à ilha. “As pessoas estão sempre a pedir plantas nativas para pôr nos jardins, por exemplo. E tens uma geração de miúdos que cresceu com a SPEA aqui no Corvo. Um agora é vigilante da Natureza do Parque Natural de ilha!” Acrescenta ainda, com orgulho: “E este ano conseguimos que a Câmara Municipal do Corvo concordasse em realizar um apagão geral das luzes da vila em plena Campanha SOS Cagarro”. Este passo importante foi marcado pelo Lusco-Fusco Fest, em que SPEA e Parque Natural convidaram a população a apreciar a magia da noite. “Mas há coisas que só vais ver diferença nos filhos dos miúdos que tiveram estas experiências”, acrescenta.

Curiosamente para quem parece viver a mil à hora, Tânia Pipa fala muitas vezes de calma. “Tenho uma sensação de paz muito grande aqui. Só a sensação de abrires a janela e ouvires os cagarros, vê-los a passar... esta sensação de estares num calhau no meio do Atlântico, para mim, é muito especial.”

11 de fevereiro de 2020
Foto: Laura Abella




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